quarta-feira, 9 de julho de 2014

A IMPORTÂNCIA DA ESCUTA NA TRAJETÓRIA DE VIDA/ FORMAÇÃO DOCENTE - EDILEIDE ANTONINO, SARA REIS, ANA ALTINA CAMBUÍ

TRABALHO APRESENTADO NO EDUCON 2012

Ana Altina Cambuí Pereira
Edileide Maria Antonino da Silva
Sara Menezes Reis

EIXO TEMÁTICO 4: Formação de professores, memória e narrativas.

RESUMO:
O presente trabalho emerge da necessidade da escuta na formação docente da contemporaneidade. Compreendendo a escuta a partir de três desdobramentos- a escuta autônoma, a escuta de si, e a escuta psicanalítica- a pesquisa tratará da relevância deste processo- o de escutar o outro, particularmente o sujeito professor- nos contextos dentro e fora da escola. O objetivo é investigar o papel da escuta no conhecimento das histórias de vida dos professores, apresentando a vertente denominada escuta pedagógica. Apresenta um trabalho que vem sendo desenvolvido em escolas da Rede Municipal de Salvador, a partir da escuta dos docentes. Dialoga com autores diversos [como Souza (2006), Contreras (2002), Ornellas (2008) e Bauman (2009)], cujas propostas articulam-se para a construção desta pesquisa, caracterizada como fornecedora de pistas para outras tantas que ainda surgirão. 
PALAVRAS-CHAVE: Formação docente. Escuta. Contemporaneidade.

Esta proposta investigativa nasce dos entrecruzamentos entre as temáticas: Contemporaneidade, Formação docente e Escuta. Esta, por sua vez, se inscreve neste trabalho em três diferentes vertentes, mas que se articulam, a saber: a “escuta autônoma”, a “escuta psicanalítica” e a “escuta de si”. Escutar é preciso!

Por meio dos muitos diálogos surgidos durante o componente curricular Bases Filosóficas da Contemporaneidade, oferecido pelo Mestrado em Educação e Contemporaneidade, por meio Programa de Pós- Graduação em Educação e Contemporaneidade (PPGEduc), da Universidade do Estado da Bahia (UNEB)], as pesquisadoras articularam-se em suas temáticas e objetos específicos para um eixo comum: a 
escuta como um ponto de partida para conhecer e valorizar as trajetórias de vida-formação de professores.
Sabedoras de que são muitos os desafios docentes na Contemporaneidade, as professoras-pesquisadoras inscrevem esta proposta no intuito de contribuir com as discussões que vem sendo estruturadas no contexto da formação de professores. Dentre os muitos saberes que tem encontrado lugar nas propostas de formação docente, a escuta ainda tem poucas produções e essas precisam ser (des)veladas a fim de colaborar com as demais pesquisas propostas nesta área.

Aqui será materializado um diálogo que visa à compreensão da complexidade estabelecida em (alguns tantos) desafios da docência na contemporaneidade. Como docentes, inseridas num contexto contemporâneo repleto de desafios diversos (dentro e fora da sala de aula), e enquanto pesquisadoras, questionamos as razões que marginalizam o lugar da escuta na formação docente. Não somos preparados/ formados para escutar a nós mesmos nem aos outros. Não há muitos lócus de escuta para professores. Aflora uma inquietação outra, que se inscreve como objetivo deste trabalho. Trata-se de tentar investigar qual é, então, a importância/ o papel da escuta no conhecimento das histórias de vida dos professores. 
Apresentamos também uma experiência em andamento que vem sendo desenvolvida com a escuta de professores da Prefeitura Municipal de Salvador, e as possibilidades fecundas que daí emergem para a estruturação desse e de outros trabalhos futuros. No intuito de colaborar com as pesquisas que já vem sendo desenvolvidas na área de formação de professores, inserimos esta proposta investigativa compreendendo a pertinência desta pesquisa, partindo do pressuposto que a escuta de professores proporciona o desvelar de suas andanças e o saber sobre quem são. Escutar os professores pode proporcionar a inserção deles como autores neste processo. Eles não estarão simplesmente dentro das suas histórias; serão autores/atores/sujeitos e, neste percurso, podem se (trans) formar ou transformar suas práticas (pessoais ou profissionais), em um movimento que não é estanque. É dinâmico, criativo e não se finda nos escritos, mas continua em suas trajetórias.

A metodologia utilizada para estruturação deste trabalho é de cunho qualitativo. Optamos pelo trabalho com as histórias de vida, configuradas enquanto estratégia de pesquisa pessoal e coletiva, politicamente desestruturadas de certos paradigmas tradicionais de investigação. É relevante apropriar-nos do pensamento de Souza quando este afirma, sobre os estudos com as histórias de vida, que se trata de uma forma de mediar estratégias que permitam ao professor “tomar consciência de suas responsabilidades pelo processo de sua formação, através da apropriação retrospectiva do seu percurso de vida” (SOUZA, 2006, p. 262). O mesmo autor enfatiza ainda a necessidade de realizar pesquisas educacionais, tendo como pano de fundo as narrativas das trajetórias de escolarização e formação. Outros autores também serão utilizados para somar com os escritos acima mencionados. Trata-se das obras de Freire (ano), Contreras (2002), Barbier (2000), Nóvoa (1998;2000) Josso (2002), Freud (ano), Pereira (2005;2010;2011) e Ornellas (ano). Compreendemos que as pesquisas desses autores nos embasam para a discussão proposta sobre a escuta das histórias de vida-formação de professores.

 Ao construir esta proposta reafirmamos o desejo de investir na busca pela valorização das histórias de vida/profissão dos professores a partir da escuta das mesmas, ressaltando a sua relevância no espaço acadêmico. Anelamos pela junção desses percursos formativos, que destacam a singularidade de cada docente e de sua história, numa perspectiva de valorização e respeito.  Convidamos os leitores a um (outro jeito de) olhar a formação docente, a partir das articulações entre as (nossas) leituras que embasam essas linhas e nossas próprias histórias e itinerâncias tantas que nos fizeram chegar até aqui...

ESCUTANDO POSSIBILIDADES E DESAFIOS: TRÊS DIFERENTES FORMAS DE
ESCUTAR

Nossas trajetórias e itinerâncias formativas são repletas de sentidos, pessoas, saberes e experiências que se entrecruzam com outras tantas a nossa volta. Quando dialogamos sobre adocência, não podemos deixar de contemplar aspectos que nos marcaram (positiva ou negativamente) em nossas vidas pessoais e profissionais. Há uma indissociabilidade entre essas dimensões, como nos lembra Nóvoa (1992; 2000).

Sabedoras dessa complexidade que se instaura e cujas discussões ganham força na Contemporaneidade, inserimos a escuta como elemento fundamental no processo formativo dos professores. Dialogaremos com três formas diferentes de escutar, que se articulam harmonicamente: a escuta autônoma, a escuta psicanalítica e a escuta de si. Empreendemos uma aventura de escutar desafios e possibilidades de professores a partir desses vieses, entrecruzando-os com uma experiência que já vem sendo empreendida com docentes do município de Salvador.

POR UMA AUTONOMIA NA ESCUTA...

 A autonomia na relação docente torna-se um fator decisivo para o constante aprimoramento do processo de ensino e aprendizagem. Segundo Freire (2011, p. 133), “o sujeito que se abre ao mundo e aos outros inaugura com seu gesto a relação dialógica em que se confirma como inquietação e curiosidade, como inconclusão em permanente movimento na história”. Implica dizer que falar em autonomia requer professores que assumam a condição de protagonista, ou seja, não permitir omissão no exercício de sua função docente.
A autonomia na escuta é saber ouvir a voz do professor e lançar um novo olhar para um ensino democrático, construtivo, ético e contextualizado e, assim, ser descobridor de caminhos é a saída para uma educação permeada na valorização do outro, no entendimento do outro enquanto um ser que constrói, desconstrói e reconstrói. O processo de autonomia se dá na coletividade e não de forma unilateral/individualizada, já que a autonomia se constrói no encontro, é processo, é vir a ser, sem data e hora marcada. Assim sendo, apoiamos em Freire (2011) para discorrer sobre a importância do ato de escutar. No emaranhado dessas indagações, o processo de escuta é: "[...] a disponibilidade permanente por parte do sujeito que escuta para  a abertura à fala do outro, ao gesto do outro, às diferenças do outro. Isso não quer dizer, evidentemente, que escutar exija de quem realmente escuta sua redução ao outro que fala. Isso não seria escuta, mas autoanulação. A verdadeira escuta não diminui em mim, em nada, a capacidade de exercer o direito de discordar, de me opor, de me posicionar. Pelo contrário, é escutando bem que me preparo para melhor me colocar ou melhor me situar do ponto de vista das ideias. Como sujeito que se dá ao discurso do outro, sem preconceitos, o bom escutador fala e diz de sua posição com desenvoltura. (FREIRE, 2011, p.117) ".


 Percebe-se que é preciso escutar, pois o educador que escuta é capaz de transformar o meio em que está inserido e, assim, contribuir de forma eficiente e eficaz no processo deconstrução crítica do conhecimento entre os seus educandos. "[...] se a aposta deve ser feita em torno da valorização da pessoa humana, considero então que a formação de professores constitui um período fundamental de crescimento pessoal que não pode ser negligenciado, pois inscreve-se num contexto mais amplo de desenvolvimento global da pessoa.  [...] E ele quer ser pessoa, pessoa com a tal dimensão pessoal partilhada, que see respeita e respeita o outro. E a dimensão pessoal não se outorga, ela adquire-se, ela conquista, ela forja-se pelo exercício dos valores humanos, em cumplicidade com os outros. (SOUSA, 2000, p.257)".

A figura do professor é de extrema importância para o processo de ensinoaprendizagem, principalmente porque este se configura nos dias atuais como um mediador que deve provocar e levantar questionamentos, recusando o título de ser um mero transmissor de conhecimentos. A dinâmica da sala de aula precisa favorecer o aprendizado do aluno, e fortalecer a relação do professor com a turma, mas, ao mesmo tempo, desafiar o docente para a aplicação de uma metodologia de ensino que valorize a autonomia intelectual do educando.

 POR UMA ESCUTA SUBJETIVA

Consideramos importante salientar que a diferença entre ouvir e escutar é sutil, mas de intensa relevância. Escutar o outro está para além da compreensão da palavra dita, o que caracteriza a escuta psicanalítica que aqui trazemos como instrumento relevante para o processo educacional. Defendemos aqui a necessidade de se ampliar a escuta aos profissionais de educação, considerando que para a promoção do bem-estar na escola é de fundamental importância que se possa escutar os atores que compõem a cena escolar, espaço em que se constata um reflexo da crise de autoridade que se percebe na pós-modernidade. De certa forma, esta pesquisa propõe um novo estilo  de escuta para a educação, uma vez que traz como fundante o enlaçamento destes três tipos acolhimento à escola: a escuta sensível, a escuta psicanalítica e a escuta autônoma, tentando de alguma forma (re)inventar um novo elo para este desenho: a escuta pedagógica.

Será por meio de uma escuta minuciosa e pela acolhida da demanda “através de um olhar que possa contemplar e alcançar a singularidade das existências”vi que pretendemos alcançar o docente em sua subjetividade; nesta perspectiva, o ato de escutar conceberá a subjetividade de cada um na relação com o outro e ainda com Outros, enfatizando os componentes internos e intrapsíquicos. Freud, desde o início, utilizou-se da escuta como forma de tratar os sintomas apresentados pelo paciente pela via da transferência. Durante toda a sua trajetória, apesar de inserir modificações nos métodos utilizados de modo a aperfeiçoá-los para seu viés clínico, jamais perdeu de foco a fala do paciente e a escuta cuidadosa do analista. A psicanálise, inicialmente, era uma arte interpretativa que induzia o paciente, através da sugestão, a abandonar suas resistências. Contudo, foi percebido que para o inconsciente tornar-se consciente tal método não era suficiente, o que fez o pai da psicanálise abandonar a hipnose, passando pelo método catártico até chegar à associação livre, método no qual o sujeito é encorajado a falar livremente sobre qualquer ideia, por mais embaraçosa, irrelevante ou tola que lhe pareça, trazendo ao nível consciente suas lembranças ou pensamentos reprimidos. Lacan faz um retorno ao sentido de Freud, parte do Édipo para a Função Paterna. Seus conceitos fundantes se deram no sentido da investigação da relação do sujeito com o seu sintoma. Ele também utilizou a escuta para acessar os significantes do sujeito (S) (que ele nomeou Falasser). Sua visão estruturalista permite interpelar que, enquanto o sujeito fala, ele é Sujeito e, se há alguém que fala há necessidade de alguém que escute, pois a fala de um sujeito é sempre direcionada a alguém que o remete, partindo de uma dinâmica inconsciente à relação primeva vivida com as figuras parentais. O Sujeito é, antes de tudo, desejante, marcado pela falta, pela incompletude. Segundo Ornellas, é essa identificação com o outro ser faltante que constitui o sujeito, cada um no seu estilo, que é dito pela mesma autora como “marca singular de um sujeito,[...] é seu manejo em falar, escrever, escutar, etc; é o seu jeito de enfrentar sua falta-a-ser (o sujeito que demanda ser)”. A escuta vem, neste contexto, mostrar-se instrumento de junção das duas faces que encaminham e direcionam a construção subjetiva do sujeito: a educação e a psicanálise.

 A escuta pelo viés da psicanálise acontece na leitura das entrelinhas do discurso, pautando-se também nos gestos e atitudes; a escuta psicanalítica é prerrogativa do psicanalista, mas também nos oferece bases para a construção de um método que aqui nomeamos de “escuta pedagógica”, refutando qualquer tentativa de aprisionamento do sujeito em uma determinada posição, rotulação ou diagnóstico. A proposta maior é escutar esta escola para melhor compreendê-la como aparelho formador e transformador do sujeito.

A NECESSIDADE DE UMA “ESCUTA DE SI”

 Escutar a si mesmo é mais do que um componente no processo de formação do professor. Insere-se, neste contexto, como uma necessidade de fazer emergir memórias, trajetórias e narrativas, para além do que é dito. Nóvoa (1995) discorre sobre a pertinência da indissociabilidade entre vida-formação-profissão docente. Nossas trajetórias profissionais dizem muito do que somos enquanto pessoas: quais palavras utilizamos, em quais ideologias acreditamos (e propagamos), de que lugar nós somos...ou seja, nos denunciam, desnudam, em um processo fluido, contínuo, dinâmico do que somos e não somos. Compreende-se, então, o que Nóvoa diz tão enfaticamente: “O professor é a pessoa, e uma parte importante da pessoa é o professor.” (Nóvoa, 1995, p.9).

A nossa vida, a nossa história de vida e itinerâncias pessoais e formativas são complexas e plurais, avivando a nossa memória e aquecendo os nossos corações. Ao buscar na memória os objetos, os desenhos, as fotografias, as imagens, os momentos que passamos, as histórias que ouvimos e que narramos também, os fatos que marcaram, as experiências vivenciadas, as lições aprendidas, podemos encontrar possibilidades de melhor atuar, ressignificando nossa prática e refletindo sobre o nosso saber-fazer. É no âmbito de toda essa problemática, de todos os fios aqui entrelaçados, que nos  apropriamos da metodologia das Histórias de Vida como um caminho que comporta a  complexidade de uma vida, em prol da compreensão das dimensões formativas subjacentes a ela. Em suas reflexões, Dominicé (2010) aponta que: "[...] a história de vida é outra maneira de considerar a educação. Já não se trata de aproximar a educação da vida, como nas perspectivas da educação nova ou da pedagogia ativa, mas de considerar a vida como o espaço de
formação. A história de vida passa pela família. É marcada pela escola. Orienta-se para uma formação profissional, e em consequência beneficia detempos de formação contínua. A educação é assim feita de momentos que só adquirem o seu sentido na história de uma vida. (DOMINICÉ, 2010, p. 199). "

Escutar os sujeitos nos proporciona uma privilegiada condição de conhecimento das suas práticas, sensações, sentimentos. Estudar e nos apropriar das histórias de vida dos professores nos permitirá evocar as suas concepções, memórias, vozes. São essas vozes que intentamos ouvir sensível e respeitosamente: " essa escuta do subjetivo e do desenvolvimento pessoal do professor que preciso considerar no processo de sua formação, seja inicial ou continuada. Conseqüentemente, a história de vida permitirá transpor a voz, há muito calada, das diferentes necessidades do professor (SOUZA, 2006, p.55)."

Esse movimento envolverá dimensões como a lembrança. Sabedoras de que a “lembrança é a percepção de uma imagem que se desloca de um tempo que já passou para o tempo presente” (CHIARA, 2001, p. 22), e que não segue uma ordem cronológica, nos posicionaremos diante desses professores de forma que suas lembranças sejam cuidadosa e sensivelmente ouvidas. Permeadas pelo passado, mas num contexto presente, precisaremos sinalizar aos professores que o lugar da lembrança terá que ser garantido para que suas histórias constituam-se como elementos de investigação para nós.

 As falas dos professores desvelarão as histórias e leituras dos próprios mundos, como também as de outros tantos, favorecendo a compreensão do processo construtivo do ser sujeito/professor, ao vivenciar histórias cotidianas, sejam das suas trajetórias pessoais ou resultantes da profissão. A partir dessas garantias aos tempos/espaços da escuta de professores, é possível a descrição de passagens repletas de significados e sentidos das nossas vidas, dores e sabores da docência que, de uma ou outra forma, descrevem um pouco do que somos, enquanto pessoas e profissionais.

UMA EXPERIÊNCIA COM A ESCUTA DE PROFESSORES

Falar das itinerâncias pessoais e formativas que nos constituíram/constituem enquanto docentes nos insere em um movimento dinâmico. Em um “ir e vir” contínuo, ultrapassando as fronteiras entre passado e presente, repleto de sentidos que permeiam o ser/fazer docente. Em busca de possíveis esclarecimentos acerca dessas questões, intentamos adentrar ao espaço da formação docente para compreender, através da escuta, as dificuldades do ensino e possíveis passos para amenizar (ou direcionar para soluções) parte dos desafios enfrentados pelos professores.

 Iniciamos um movimento de escuta ao profissional da educação (da Rede Municipal de Salvador), aqui compreendido como todo sujeito envolvido no trabalho com o aluno ou famílias no espaço da escola, incluindo o grupo gestor, coordenadores e professores. Nestes sujeitos centraremos nossa escuta. O desejo da pesquisa surgiu a partir da constatação da existência de afetos prazerosos e desprazerosos, declarados pelo professor, no ambiente escolar; afetos ambivalentes, pendulantes entre o desejo e o não-desejo, a espera e o desespero do bem-estar.

 Por meio de trabalhos que envolvem a escuta e o movimento, favorecendo espaço de fala num ambiente horizontal e circular, continuaremos a investigação sobre os afetos que perpassam o profissional em seu trabalho docente, utilizando, para tanto, a modalidade de pesquisa denominada grupo focal (GATTI, 2005), na qual os sujeitos ficam à vontade para expor suas angústias num espaço comum ao grupo. Elegemos seis unidades educativas, dentre escolas municipais e empresas educativas da Fundação Cidade Mãe.

 As escolas têm em comum o fato de serem municipais e se localizarem em bairros periféricos; as unidades da Fundação Cidade Mãe (FCM) são empresas educativas que atendem jovens e crianças em situação de risco social/pessoal, complementando a educação formal com oficinas lúdico-pedagógicas e com cursos profissionalizantes, também localizadas em bairros da periferia de Salvador. Nas escolas encontramos um universo de professoras (gênero feminino), funcionárias da rede municipal. Nas unidades da Fundação os educadores sociais estão em equilíbrio numérico quanto ao gênero; quanto ao regime de contratação, apenas cerca de quarenta por cento (40%) dos educadores são professores da rede municipal (cedidos em convênio de cooperação técnica), ou seja, a maior parte é composta por educadores contratados por empresas terceirizadas e não necessariamente com licenciatura (concluída) para o exercício das oficinas ofertadas. Estes dados tornam-se relevantes para que se possa perceber de que lugar fala o educador-sujeito dessa pesquisa.

 A inspiração de cunho qualitativo deste “embrião” de pesquisa será fundamentada em três maneiras de promover a escuta que, embora aportados em locais diferentes, articulamse harmonicamente. A primeira delas será a escuta autônoma, pois compreendemos que é dever do pesquisador sentir o universo afetivo, imaginário e cognitivo do outro, para poder compreender de dentro de suas atitudes, comportamentos e sistemas de ideias, de valores, de símbolos, de mitos, de forma sensível. Essa postura abre espaço para possíveis transformações em diversas dimensões (pessoal, profissional, emocional). Para Barbier (2002), a escuta sensível não faz juízos de valor, mas aceita, através da empatia, a existência dos outros enquanto sujeitos. Na socialização das experiências não há espaço para julgamentos ou a pretensão de comparar o que é compartilhado. Os estudantes apenas posicionam-se como sujeitos que escutam e se colocam no lugar do outro:

A escuta sensível reconhece a aceitação incondicional de outrem. O ouvinte sensível não julga, não mede, não compara. Entretanto, ele compreende, sem aderir ou se identificar às opiniões dos outros, ou ao que é dito ou feito. A escuta sensível pressupõe uma inversão de atenção. Antes de situar uma pessoa em seu lugar começa-se por reconhecê-la em seu ser (BARBIER, 2002, p.1).

Com essas palavras, percebemos a importância da validação do outro no processo de construção autônoma da sua formação, quer no âmbito profissional ou social, sendo a autonomia da escuta aqui percebida como uma qualidade do ofício docente. Para Contreras (2002, p. 201), a autonomia só pode ser construída no encontro, “mediadas pelo entendimento e o diálogo”. Desse modo, corroboramos também com Freire quando ele sinaliza a importância de uma educação que seja realmente libertadora, autônoma e criativa, mesmo que
para isso precisamos constantemente correr riscos, pois:  "[...] Nadar contra a corrente significa correr riscos e assumir riscos. Significa, também, esperar constantemente por uma punição. Sempre digo que os que nadam contra a corrente são os primeiros a ser punidos pela corrente e não podem esperar ganhar de presente fins de semana em praias tropicais. (FREIRE; SHOR, 1986, p.29). "

 Por essa via de pensamento, cabe-nos dizer que hoje mais do que nunca, é de extrema necessidade uma transformação na forma de escutar os docentes, já que vivemos numa era de supercomplexidade, extremamente efêmera e líquida (BAUMAN, 2009).A segunda forma de escutar será a escuta psicanalítica, que vai além da palavra dita e da palavra não dita e que se estende pelo olhar ao sujeito completo, consciente e inconsciente. Uma escuta de palavras e gestos que abrem acesso à significação. A grande proposta é acessar esse sujeito pessoal que se enlaça ao profissional e tem suas angústias misturadas e potencializadas, numa tentativa de revelar se é a ambiência da escola e o exercício docente que leva o mal-estar ao sujeito ou se é o mal-estar que se instala na contemporaneidade que adentra o espaço escolar. Torna-se relevante levar a escuta psicanalítica para o espaço de labor do docente para que se possa desvelar a origem desse sintoma, um possível canal de comunicação. Ornellas (2008) nos diz que: "[...] Diante desse mal-estar no ambiente escolar, a escuta psicanalítica pode abrir um canal de comunicação, porque este instrumento da escuta envolve não só o sentido do ouvir, mas o de fazer uma leitura subjetiva do discurso,  simbolizado pelo sujeito escutante (ORNELLAS, 2008, p.3)".

No texto citado, a autora faz alusão à escuta não só ao professor, mas ao aluno e à escola, de forma mais ampliada, como um processo fundante de onde pode emergir a criação. “Ao escutar os ditos e os não-ditos, produz-se, amplia-se e repete-se o afeto prazeroso e desprazeroso e, nesse processo de repetição, pode emergir a criação”, é o que afirma a Lourdes Ornellas.

Para além da escuta pura e simples, ou partilha de experiências, o trabalho proposto aqui deseja alçar novos horizontes, novos voos, instituindo a escuta pedagógica. As sessões de encontro com os professores serão divididas em 10 movimentos com temáticas diferenciadas (tais como o toque, a partilha, a escuta, o olhar). Não será uma proposta que envolverá apenas nossos sentidos orgânicos. O que se pretende é que essa se configure como um lugar de trocas significativas: as histórias de vida, as trajetórias e itinerâncias formativas e as experiências docentes terão um lócus para desabrochar e serem trabalhados.

A terceira maneira de trabalhar com essa proposta se firmará na análise/partilha das experiências e trajetórias formativas, por meio da escuta de si, das histórias de vida dos professores. A apropriação das histórias de vida de cada professor será possibilitada durante as sessões dentro do espaço das escolas e da Fundação Cidade-Mãe. A tentativa na qual se insere esta proposta investigativa valida-se por se tratar de uma prática reflexiva, possibilitando além do “conhecimento de si” (SOUZA, 2006), uma “reinvenção de si”
(JOSSO, 2002). Ainda utilizando o pensamento de Souza (2006), é relevante destacar que o método autobiográfico e as narrativas de formação consolidam-se como possibilidades de conhecimento do ser e são facilitadores no processo de realização da pesquisa na formação de professores. As narrativas podem oportunizar espaços nos quais o sujeito seleciona suas idéias, possibilita a reconstrução de sua experiência de vida e, numa visão (auto) reflexiva, busca compreender a trajetória de si e do(s) outro(s), sem perder de vista as próprias itinerâncias formativas.

Ao articular esta proposta, planejamos articular mais que “métodos” de trabalho, ou de escuta. Desejamos fornecer pistas para consolidação de uma escuta pedagógica. Intentamos articular vidas, escutas, histórias e trajetórias, nas quais os professores sintam-se protagonistas dessa trama complexa e desafiadora, entrecruzando olhares diversos.

 E PARA (NÃO) TERMINAR...

Consideramos a escuta pedagógica um novo estilo de escuta e um poderoso instrumento para consolidar no sujeito/professor o valor de sua história enquanto ferramenta constitutiva do profissional que atua na escola. No mundo pós-moderno o ato de escutar se faz enquanto discurso e ética e, certamente, se opõe a qualquer solução de adaptação do sujeito à cultura. Neste sentido, acreditamos que por meio da escuta estará se ofertando ao educador o suporte necessário para que possa se confrontar com seu desejo e com suas faltas, com sua história e sua autonomia, podendo assim enlaçar os afetos do oficio de ser professor.

Para Goodson (2007, p. 69), “o ingrediente principal que vem faltando é a voz do professor. [...]. Necessita-se agora de escutar acima de tudo a pessoa a quem se destina o ‘desenvolvimento’.” Como aspectos que se entrelaçam na dinamicidade de uma bricolagem pedagógica, por seres individuais e coletivos ao mesmo tempo, a escuta sensível e a validação do Ser Professor são premissas fundamentais para uma formação coerente, criativa, competente e com possibilidades de esperanças num mundo cada vez melhor. Por fim, “ninguém pode estar no mundo, com o mundo e com os outros de forma neutra. Não posso estar no mundo de luvas nas mãos constatando apenas”. (FREIRE, 2011, p.75).

 A pretensão desse estudo não é esgotar as possibilidades de trabalho com a escuta na formação docente na Contemporaneidade. As aprendizagens não se encerram, nem as sugestões de trabalho são absolutas, estanques, imóveis. Temos a clareza de que provocações e inquietações são apenas possíveis molas propulsoras de pesquisas outras. E foi nessa condição que partimos para investigar o trabalho de professores da Rede Municipal de Salvador, pois na reflexão de nossa prática e (re)analisando seus fundamentos podemos ter consciência de nossa inconclusão enquanto seres humanos.

 Considerar os professores como seres que constroem suas aprendizagens, estabelecem significados e alimentam a subjetividade, estabelecendo relações com as realidades das quais participam é necessário. O que se espera é proporcionar um trabalho significativo que não dissocie a produção de conhecimentos das próprias escutas das histórias de vida dos docentes envolvidos na pesquisa.
Assim sendo, somente uma formação voltada para a emancipação e para a escuta pode contribuir para que os sujeitos desenvolvam a capacidade de compreender, interpretar e agir sobre/com o mundo e a realidade na qual estão inseridos. É necessário conceber um lugar que propicie uma reflexão para além da constatação dos limites enfrentados no cotidiano. Um momento que valorize suas histórias de vida e os valorize, enquanto profissionais e sujeitos que são.

REFERÊNCIAS
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escolares. 2. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

Ana Altina é Mestranda em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia - UNEB. Especialista em Novas Tecnologias na Educação pela Escola Superior Aberta do Brasil – ESAB e Graduada em Relações Internacionais. Membro do Grupo de Pesquisa Docência Universitária e Formação de Professores – DUFOP / UNEB. Diretora Acadêmica do Sistema Bahia de Ensino (FAZAG, FHR, FACSA e FACET). Consultora  Educacional para Assuntos da Educação Superior: (Autorização, Reconhecimento de Cursos e Recredenciamento de IES). E-mail: cambuiana@gmail.com

Edileide Antonino é Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação e Contemporaneidade – UNEB; Pedagoga (UFBA), Psicopedagogia (IBPEX), Terapeuta Comunitária Sistêmica Integrativa (MISC-BA/ABRATECOM), Técnica da Fundação Cidade Mãe (PMS); Pesquisadora do GEPE-RS (Grupo de Estudos em Psicanálise, Educação e Representação Social); contato: leideantonino@yahoo.com.br

Sara Reis é Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação e Contemporaneidade – UNEB; Pedagoga (UNEB), Especialista em Alfabetização e Letramento (FAMA). Professora da Rede Municipal de Salvador (PMS); Pesquisadora do Grafho (Grupo de Pesquisa em (Auto)Biografia, Formação e História Oral). E-mail: saramre@hotmail.com.


terça-feira, 8 de julho de 2014

JAIME SODRÉ - VOZES DA ÁFRICA


Tão bom que resolvi reproduzir aqui!

http://www.irdeb.ba.gov.br/tamboresdaliberdade/?tag=jaime-sodre


VOZES D'AFRICA

Jaime Sodré

A África clama por um novo olhar. “Mulheres Africanas – A Rede Invisível” é um filme de Carlos Nascimbeni, que aborda 5 mulheres marcantes na história deste continente: Luiza Diogo ressalta a presença feminina na definição da agenda nacional; Graça Machel ex-ministra da Educação de Moçambique, destaca que a presença feminina já atingiu a uma massa crítica, faltando visibilidade; Sara Masasi conta como saiu da invisibilidade na Tanzânia mulçumana como empresária de sucesso; Leymam Gbowee Prêmio Nobel, atuante pela paz na guerra civil da Libéria; Nadine Gordimer escritora, vencedora do Nobel, argumenta da impossibilidade de falar de uma cultura africana única.
Luiza Diogo primeira-ministra entre 2004 a 2010 diz que a mulher luta principalmente pela segurança alimentar, o trabalho da mulher africana na zona rural é extremamente duro, “imagine uma mulher de vários braços”, comenta. Para Luiza a mulher está a construir uma agenda do desenvolvimento do país, por isso investir nas mulheres é importante.
Graça Machel, ministra da Educação e Cultura entre 1975 a 1989 em Moçambique, chama a atenção para as transformações que as mulheres africanas têm revelado: “já há uma massa crítica no ambiente das mulheres africanas, em particular as jovens, altamente qualificadas, que exercem funções de grande responsabilidade, mas não tem havido um sistema que lhe permita ter visibilidade”.
Sara Masasi da Tanzânia, é líder empresarial, e diz: “quando se tem um negócio você precisa pensar, por que você não quer perder”; deve-se desfilar na avenida do sucesso que não se chega sem planejar. “Adoro trabalhar, os desafios me tornou a pessoa que sou”, era a única africana a frequentar  uma escola europeia. Atua no mercado de placas para automóveis.
Carmeliza Rosário é antropóloga de Moçambique e assim se manifesta: “Não creio que a humanidade tenha se desenvolvido sem a existência da mulher… são elas que ficam grávidas, geram os filhos”, mas chama a atenção de que todos são importantes de alguma maneira. Alega que é preciso ter respeito pela África, afinal “somos o berço da humanidade”.
Nadine Gordimer, da África do Sul, branca, com Prêmio Nobel de Literatura, ressalta que o continente africano é enorme, sendo impossível falar a respeito de uma cultura unificada, porém as mulheres desempenharam um papel subjetivo, até os dias de hoje há problemas de lidar com pessoas que vendem suas filhas de 14 ou 15 anos para homens mais velhos. A mulher negra tem que lutar contra isso, conclama.
Para Graça Machel nos últimos dez anos o continente africano fez progresso quanto ao acesso das “raparigas” à educação, muitas no primário, mas o desafio é a passagem do primário para o secundário e ainda maior deste para o “terciário”. Lembra que existe uma grave evasão da terceira para a quarta, quando a comunidade acredita que a menina está pronta para casar, ela afirma que as tradições não são estáticas e acredita em mudanças.
Leymam Gbowee é uma personagem carismática, nascida na Libéria, Prêmio Nobel da Paz. A guerra civil na Libéria matou cerca de 200 mil pessoas, foram cometidas atrocidades por soldados de ambos os lados, milhares fugiram e Gbowee viveu em campos de refugiados  em Gana. De 1909 a 2003 foram os anos mais cruéis, grupos inteiros foram dizimados, mulheres estupradas e alguns soldados diziam que suas genitálias eram boas demais para violentar as mulheres, por isso usavam facões na genitália feminina.
Quando vieram as conversações de paz elas tiveram grande esperança, mas as discussões   giravam em torno de quem iria controlar as minas de diamantes,  em revolta Gbowee e suas amigas bloquearam a saída do prédio, o segurança quis prendê-la, mas ela ameaçou tirar a roupa e disse: “a minha nudez será em protesto contra a miséria”, duas semanas depois o acordo de paz foi assinado.
Luiza Diogo afirmou que “o substrato do funcionamento deste continente está nas mãos das mulheres, é aquele ditado que diz, a mulher sustenta metade do céu… mas se um dia ela largar, tudo rui”. Que continuem a sustentar!

Jaime Sodré é historiador, escritor, doutorando em História Social, PhD em História da Cultura Negra, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e do Centro Federal de Educação Tecnológica da Bahia (CEFET/BA).

sexta-feira, 4 de julho de 2014

SHOW DE CAETANO EM SALVADOR - 2014

Caetano Veloso volta a Salvador com turnê Abraçaço


A tão esperada data está chegando!! O show Abraçaço retorna a Salvador depois de circular pelo país e ter o dvd gravado, ao vivo, no Rio de Janeiro. O show vai acontecer no dia 9 de agosto, no Bahia Café Hall, na Av Paralela, a partir da 22h.
Caetano Veloso volta a Salvador com turnê ‘Abraçaço’
Foto: Divulgação
 Os ingressos estão à venda nos balcões da Ticket Mix e o primeiro lote 
custa R$ 70 (pista) e R$ 100 (pista vip), valores de meia-entrada. 

Divulgados data e preços de ingressos do show de Caetano Veloso em Salvador


O repertório do show que conta com a presença da banda Cê traz canções como "A Bossa Nova é Foda", "Funk Melódico", "O Império da Lei" e sucessos da longa carreira como "Eclipse Oculto", "Reconvexo" e "A Luz  de Tieta".

Vale Conferir! Eu vouuuuuuu!!







O Leãozinho


Caetano Veloso

Gosto muito de te ver, leãozinho
Caminhando sob o sol
Gosto muito de você, leãozinho
Para desentristecer, leãozinho
O meu coração tão só
Basta eu encontrar você no caminho
Um filhote de leão, raio da manhã
Arrastando o meu olhar como um ímã
O meu coração é o sol, pai de toda cor
Quando ele lhe doura a pele ao léu
Gosto de te ver ao sol, leãozinho
De te ver entrar no mar
Tua pele, tua luz, tua juba
Gosto de ficar ao sol, leãozinho
De molhar minha juba
De estar perto de você e entrar no mar

http://www.bahianoticias.com.br/cultura/noticia/17743-caetano-veloso-volta-a-salvador-com-turne-abracaco.html

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Entrevista com Cipriano Carlos Luckesi

Provas e exames, segundo o educador, são apenas instrumentos de classificação e seleção, que não contribuem para a qualidade do aprendizado nem para o acesso de todos ao sistema de ensino

Márcio Ferrari (novaescola@fvc.org.br)
http://revistaescola.abril.com.br/formacao/cipriano-carlos-luckesi-424733.shtml
Cipriano Luckesi. Foto: Edson Ruiz
CIPRIANO LUCKESI  


















Cipriano Carlos Luckesi é um dos nomes de referência em avaliação da aprendizagem escolar, assunto no qual se especializou ao longo de quatro décadas. Nessa trajetória, que começou pelo conhecimento técnico dos instrumentos de medição de aproveitamento, o educador avançou para o aprofundamento das questões teóricas, chegando à seguinte definição de avaliação escolar: "Um juízo de qualidade sobre dados relevantes para uma tomada de decisão". Portanto, segundo essa concepção, não há avaliação se ela não trouxer um diagnóstico que contribua para melhorar a aprendizagem. Atingido esse ponto, Luckesi passou a estudar as implicações políticas da avaliação, suas relações com o planejamento e a prática de ensino e, finalmente, seus aspectos psicológicos. As conclusões do professor paulista, que vive desde 1970 em Salvador, apontam para a superação de toda uma cultura escolar que ainda relaciona avaliação com exames e reprovação. "Estamos trilhando um novo caminho, que precisa de tempo para ser sedimentado", diz. Luckesi, que é professor aposentado, orientador de pós-graduandos e integrante do Grupo de Pesquisa em Educação e Ludicidade da Universidade Federal da Bahia, concedeu a seguinte entrevista a NOVA ESCOLA.

Como é feita, hoje, a avaliação de aprendizagem escolar? 
A maioria das escolas promove exames, que não são uma prática de avaliação. O ato de examinar é classificatório e seletivo. A avaliação, ao contrário, diagnóstica e inclusiva. Hoje aplicamos instrumentos de qualidade duvidosa: corrigimos provas e contamos os pontos para concluir se o aluno será aprovado ou reprovado. O processo foi concebido para que alguns estudantes sejam incluídos e outros, excluídos. Do ponto de vista político-pedagógico, é uma tradição antidemocrática e autoritária, porque centrada na pessoa do professor e no sistema de ensino, não em quem aprende.

Que métodos devem ser usados? 
A avaliação é constituída de instrumentos de diagnóstico, que levam a uma intervenção visando à melhoria da aprendizagem. Se ela for obtida, o estudante será sempre aprovado, por ter adquirido os conhecimentos e habilidades necessários. A avaliação é inclusiva porque o estudante vai ser ajudado a dar um passo à frente. Essa concepção político-pedagógica é para todos os alunos e por outro lado é um ato dialógico, que implica necessariamente uma negociação entre o professor e o estudante.

Por que se insiste na aplicação de provas e exames?
Nós, educadores do início do século 21, somos herdeiros do século 17. O modelo atual foi sistematizado na época da emergência da burguesia e da sociedade moderna. Se analisarmos documentos daquele tempo, como o Ratio Studiorum, dos padres da ordem dos jesuítas, ou a Didactica Magna, do educador tcheco Comênio, veremos que o modelo classificatório que praticamos hoje foi concebido ali. Muitos outros educadores propuseram coisas diferentes desde então, mas nenhuma dessas pedagogias conseguiu ter a vigência da pedagogia tradicional, que responde a um modelo seletivo e excludente. Existem também razões psicológicas para a insistência nos velhos métodos de avaliação: o professor é muito examinado durante sua vida de estudante e, ao se tornar profissional, tende a repetir esse comportamento.

Existe alguma justificativa pedagógica para o recurso da reprovação? 
Do ponto de vista pedagógico, de fato, não existe nenhuma razão cabível. A reprovação é um fenômeno que, historicamente, tem a ver com a ideologia de que, se o estudante não aprende, isso se dá exclusivamente por responsabilidade dele. As frases reveladoras são aquelas do gênero "eles não querem mais nada", "não estudam", "não têm interesse" etc. Muitas outras razões, além do próprio aluno, podem conduzir ao fracasso escolar, como as políticas públicas que investem pouco no professor e no ensino, com baixos salários e problemas de infra-estrutura. O recurso da reprovação não existe em sistemas escolares de países que efetivamente investem na qualidade da aprendizagem.

O que revelam os altos índices de reprovação, sobretudo na 1ª série? 
Há aspectos internos e externos à escola. Os externos são a escassez de recursos e as más condições de ensino. Os fatores internos dizem respeito à relação professor-aluno. O professor ensina uma coisa, o estudante entende outra; ensina de uma forma e solicita que seja colocada em prática de outra; ou não usa atividades inseridas no contexto do aluno. Por exemplo: nas séries iniciais, o programa prevê o aprendizado de números múltiplos. Então pergunta-se no teste: "Quais os números menores de 200 múltiplos de 4 e de 6?" A parte que fala em "menores de 200" só está lá para confundir o aluno e complicar a questão. Muitas crianças são reprovadas porque o instrumento de avaliação é malfeito e as conduz ao erro.

Por que tanta repetência na fase de alfabetização? 
Existem estudos estatísticos mostrando que o tempo médio de alfabetização no Brasil é de 22 meses. Em algumas regiões, alfabetiza-se em seis meses; em outras, demora-se três anos. Por isso se estabeleceram os ciclos de aprendizagem. Mas não se investiu na qualidade. Se houvesse esse investimento, um ano de alfabetização seria suficiente. Aqui na cidade de Salvador há um projeto em que são atendidos meninos que não conseguiram aprender a ler e escrever em até seis anos. Com uma abordagem correta, alfabetizaram-se em seis meses. Eu tenho certeza de que qualquer criança com 6 anos e meio ou 7 se alfabetiza em um ano.

Até que ponto o sistema de vestibular determina as avaliações escolares hoje?Vestibular não tem a ver com educação, mas com a incapacidade do poder público de fornecer ensino universitário para quem quer estudar. Agora, todo o ensino, desde o Fundamental, está comprometido com o vestibular. É por isso que é tão comum a adoção de testes que não medem o aprendizado, mas treinam para responder perguntas capciosas. Eu proponho que as escolas invistam em uma prática pedagógica construtiva e paralelamente treinem para o vestibular, com simulados como os feitos pelos cursinhos. Já existem escolas no Brasil que investem na qualidade de ensino e ao mesmo tempo conseguem colocar mais de 90% dos seus estudantes na faculdade, sem necessidade de cursinho.

O que é preciso para planejar a avaliação de um determinado período letivo? O currículo escolar estabelece conteúdos para cada nível. É um parâmetro que tem de ser conhecido. Depois é essencial o planejamento de ensino, que direciona a prática pedagógica. Vamos supor que eu vá ensinar adição. Vou trabalhar o raciocínio aditivo, fórmulas de adição, propriedades, solução de problemas simples e solução de problemas complexos. Esse é o panorama que irá assegurar a prática de avaliação. Se o estudante tem o raciocínio, mas dificuldade de operar, preciso treinar essa fase. Um planejamento didático consciente prevê a elaboração de instrumentos e a correção deles quando ela for necessária para a reorientação do curso do aprendizado.

De que forma a preparação do currículo influi nesse processo? O currículo tem de distinguir e prever o que é essencial. O que for ampliação cultural deve ser abordado apenas se houver tempo. Muitas vezes o que ocorre é uma distorção: tomar o livro didático como roteiro de aulas e considerar essencial o que está ali como ilustração, curiosidade, entretenimento.

O uso de notas e conceitos pode servir a um projeto de avaliação eficaz? 
Notas ou conceitos têm por objetivo registrar os resultados da aprendizagem do aluno por uma determinada escola. Eles expressam o testemunho do educador ou da educadora de que aquele estudante foi acompanhado por ele ou ela na disciplina sob sua responsabilidade. O registro é necessário. Afinal, nossa memória viva não é capaz de reter tantos dados relativos a um estudante, quanto mais de muitos, e por anos a fio. O que ocorreu historicamente é que notas ou conceitos passaram a ser a própria avaliação, o que é uma distorção. Se os registros tiverem por objetivo observar o processo de aprendizagem de cada aluno e sua conseqüente reorientação, eles subsidiam uma avaliação formativa. Mas não se esses registros representarem apenas classificações sucessivas do estudante.

Como avaliar o modo particular como cada um aprende? É possível um atendimento tão individualizado? 
Existe uma fantasia de que, quando se fala de uma avaliação eficiente, estamos nos referindo ao atendimento de três ou quatro estudantes por vez. Mas os instrumentos de coleta de dados ampliam a capacidade de observar do professor. Se eu aplico uma avaliação para 40 alunos, não há mudança do ponto de vista da qualidade. Cada um vai manifestar sua aprendizagem por meio do instrumento escolhido. Avaliação não precisa ser por observação direta, mas por instrumentos como teste, questionário, redação, monografia, participação em uma tarefa, diálogo. Em uma classe numerosa, não posso usar entrevistas de meia hora para cada aluno. Vou produzir questionários de perguntas fechadas e trabalhar mais de perto com quem não tiver um desempenho satisfatório.

Quais são as vantagens e desvantagens dos trabalhos em grupo? Se a intenção do professor é fazer um diagnóstico do desempenho de cada um, o trabalho em grupo não vai ajudar muito, porque só avalia o conjunto. Ele é mais útil como atividade de aprendizagem ou construção de tarefa. Por outro lado, o trabalho em grupo favorece o crescimento do indivíduo entre seus pares.

Avaliação envolve um alto grau de subjetividade. Como evitar ou atenuar isso?
Há dois aspectos a considerar. Um é que o professor precisa estar honestamente comprometido com o que acredita, e isso é uma atitude subjetiva, não tem jeito. Outro aspecto é psicológico e exige autotrabalho para não deixar que questões pessoais interfiram nas profissionais. Evitar a subjetividade, nesse sentido, tem a ver com cuidar de si mesmo e do cumprimento de seus compromissos.